11 novembro 2012

Homens que se declaram



Como não amar e respeitar muito um cara que admite seu amor mesmo quando não correspondido?
Para aqueles caras, os tipos péssimos que existem aos montes por aí, isso é coisa de homem frouxo, otário "que fica babando o ovo da mina". 
Sim, porque estes são fodões demais para admitir um amor sem ter todas as certezas.

O cara que se declara, que admite o seu amor, tem que ser seguro pra caralho, pica grossa mesmo.
Dar a cara à tapa é difícil, não é para qualquer um. 
É foda admitir o que a gente quer, porque existe a possibilidade de a gente não conseguir e ficar com cara de bobo, né?

Ficar na retaguarda é muito mais fácil. Tipo deixa rolar: "Se a bola chegar em mim... e eu tiver perto da goleira... e não tiver ninguém me impedindo... eu faço o gol..." 
Faz coisa nenhuma. Você se colocou como vítima da vida e quem vai decidir ela vão ser os outros. 

Homem que dá a cara à tapa é o tipo do cara que se não é bem sucedido vai ser, porque ele tenta, ele admite, vai atrás. Ele não é do tipo peão, que tenta sair antes do horário e mata trabalho às escondidas. Ele pode virar presidente do país. E ele vai ser tão fodão que vai admitir, em público ou não, que deve muito à mulher que somou com ele durante a vida. Porque olhar pra trás também é bom.

É aquele papo mesmo de por trás de um grande homem existe uma grande mulher e vice versa, obviamente.




15 outubro 2012

lights&music

Preciso deixar aqui testemunhado o meu amor pelos librianos.
Sempre tão sensatos, sempre tão tudo.
Ah, os librianos...
Minha outra parte que pisca do outro lado da avenida.
É ele?
Desculpa se aqui deixo de lado meus grandes amigos capricornianos e virginianos. Aqueles que me fazem colocar os dois pés no chão vez que outra, aqueles que me ajudam a ser prática e certeira.
Também não posso esquecer dos sorridentes aquarianos, muito menos dos meus irmãozinhos arianos, tanto um quanto o outro me fazem sorrir quando não tenho mais força nem pra chorar...

Sobre os cancerianos obviamente devo dedicar todo meu apreço e agradecimento. O que seria dos meus sentimentos não fossem o dedicados cancerianos. Sempre certeiros, sempre de prontidão. Os melhores amigos que uma pessoa pode ter, sem dúvida...

Mas meu mergulho aqui vai para todos os librianos.
Os aniversariantes de libra.
Um aniversariante em especial.

Pronto, me declarei na internet com toda cafonice que a atitude exige. Me declarei na escrita e sem som, mas a quem interessar possa.

Libra me faz melhor, libra me pára, me faz pensar.
Libra me salva todos os dias.
Nos dias em que trabalho até à meia noite e tenho que levantar às 6 do dia seguinte.
E nos dias que não acredito mais em mim, nos dias que só quero ficar quieta, libra também cala, e faz algo para comer, e serve mais uma dose vinho...

Com toda breguice de novela das 21h, eu declaro meu amor aqui, e só não posto no facebook porque ele é tão incrível e admirável que não tem, nem nunca teve, facebook.
Por quê?
Porque não.
Porque ele é libra.
Feliz aniversário.




17 julho 2012

no, no, no

Eu adoro pegar os envelopes de açúcar união com aquelas sugestões positivas para o seu dia.
Sério, publicitário que inventou aquilo é gênio.
Deu tão certo que já criaram uma segunda leva porque o povo tava enjoado dos mesmos conselhos dados pelo açúcar.

E eis que eu, há um mês e meio atrás exatamente, resolvi que precisava de uma luz. Já estava lendo o horóscopo do terceiro astrólogo no mesmo dia, até carta de tarô virtual eu tirei (passei a maior vergonha porque foi bem na hora que a diretora de arte da editora passou do meu lado, ela chegou a comentar: "Sei como são esses dias, Ju. Tem horas que a gente apela.")
Aliviada, ainda assim corada, desci para tomar um café.
O açucar salvaria a minha vida definitivamente.
Servi o café, concentrei e peguei.
"Diga menos não"

E foi o que eu fiz o mês de junho inteiro.

E agora?

Agora chega, né?




04 junho 2012

beijo



- Tu nunca mais postou.
- É, não postei mesmo, é que...
- Já sei, muito trabalho... Olha, é muito triste entrar lá e ver o mesmo post velho.
- Tá bom, vou postar algo pra ti e para meus outros 8 leitores.

Não postei.
Como qualquer mulher me sinto culpada.

Desculpa amiga. Não é em todo feriado que a gente atravessa o oceano. :(

12 maio 2012

pela leveza dos corpos


Reproduzo abaixo o texto de feliz aniversário de Michel Melamed. Ele diz muito. Fala da leveza e da força. Força dessas para erguer o corpo com os dois braços, e leveza para conseguir suportar por mais tempo. 
E prestenção: quando ele fala da leveza de ser sexy, tenha certeza que ele não está falando de canastrices, dessas que faz com que você sinta necessidade de seduzir qualquer ser que se move nas redes sociais ou ao seu redor. Ser sexy não é seduzir constantemente para suprir sua carência, é algo nada intencional, é justamente a leveza de não se importar, esquecer e sem querer, assim, de leve... ser sexy. Porque sex appeal é aquilo que, ou você tem, ou não tem, não se aprende, se nasce. Mas, infelizmente, se perde também.
Ser leve. Ser forte.
Calhou dinventar nalgum monumento da vida que duas palavrinhas resumiam o resumão. Quer dizer, creio que no aniversário da querideza é que desenganei a idéia. Ao invés de um “feliz aniversário” e “tudo de bom” ou “de lindo”, sentenciei meu binômio-guia. Um dos primeiros? “Doçura e força”.
Raro encontrar gente doce e forte. Quer dizer, a doçura tende mormente para certa lassidão, isto é, difícil ver gestos docemente agressivos, brigadeiros de aço, um barquinho de pedra assobiando no mar… Maus exemplos. Outro: quando alguém diz “eu te amo” com quase raiva. Melhor: um carinho sem sorrir. Ao passo que força resvala – ou é resvalada – muitas vezes por incerta brutalidade. Como se o forte aguentasse qualquer coisa – que de fato aguenta, mas aguentar não significa sair incólume.
Depois sobreveio-me “Pragmatismo e mistério”. Lendo agora, parece que pragmatismo é uma variação da “força” e “mistério” uma tatuagem na coxa da doçura. É que pragmatismo pode destituir a “força” daquela preocupação da falta de medida. Pragmatismo me parece certa dosagem da força, o mínimo da Escala Richter. E mistério, bem, mistério não tenho a menor dúvida: …
Mais um ano se passo-ô-ou e nem sequer ouvir falar seu nome… Acreditei ter encontrado a Santa Resposta do Graal Binômico. Então depois do abraço e o presente, latia: “Seja leve e sexy”. Ainda agora acho infalível. Leveza pode reunir tudo: doçura, força, pragmatismo e mistério. E, então, voilá, rebola aí Kasparov: “sexy”.
Porque Rubem Braga avisou que tudo é encantador: o passarinho, o homem no mar, a moça na janela… Não existe nada ordinário no vasto mundo, senão, quiçá, os olhos de quem vê. Assim, nada custa ao passarinho cantar, o homem furar ondas e a moça existir… Dar um empurrãozinho no olhar. Desejar o desejo. “Sexy”.
Hoje estou simplificando a fórmula. Se conseguir rir e entender ou explicar, está de bom tamanho. Toda convicção pode ser defendida com um sorriso e alguma dúvida. Todo mundo quer cafuné. Todo mundo quer querer. Todo mundo tudo. Assim, feliz aniversário. “Bom-humor e inteligência” pra você.

22 abril 2012

o homem é o lobo do homem

Para Hobbes existem três elementos que levam os homens à discórdia:
  • a competição
  • a desconfiança
  • o desejo de glória


Sendo assim, por mais que muitos briguem por um mundo de igualdade, esse movimento segue utópico.
Igualdade vai contra os instintos humanos.
Ok, mas essa é a visão de Hobbes.
Será?
Pense num lugar que você adora ir porque quase ninguém conhece.
Pense nesse mesmo lugar sendo tomado por uma onda mainstream a ponto de estar em duas de cada três fotos que você passa no instagram.
Pense nas vezes que você quis ter uma roupa que ninguém tinha.
Pense na ascensão da classe C. Nos aeroportos entupidos de gente que nunca pensou que poderia voar.
Na banalizaçao dos produtos importados e das viagens para Miami, NY, Europa...
Para onde você foge agora?
O que se percebe é o desespero de uma classe média tentando se recolocar no mundo de forma..."diferenciada"(!!?)
Você quer a igualdade? Você acredita nela?
A igualdade serve para quem?
Na verdade, somos selvagens tentando nos amansar com doses de frontal e sessões extras de terapia.
Mesmo que os contratos não existam na matéria, nossas vidas são pautadas por eles, que deixem claro quem aqui é dono de quem.

Porque sua próxima viagem vai ser para Mauritânia, onde tem um restaurante super escondido, romântico e delicioso.
Escondido?
Aham, então tá.

17 abril 2012

Do que você tem medo?

Saturno é aquele planeta bacaninha que atormenta a todos, às vezes por períodos intermináveis. Saturno é o cara que fica exatamente no ponto do teu medo. Ele fica lá. Ele senta na cara do teu medo. Encontra defeito em tudo, te destrói com cinco críticas específicas e depois fica quieto, no maior estilo: dorme com essa, meu bem. É, Saturno te despreza.

Pois saiba que é lá, onde ficam teus maiores medos, que também ficam os teus grandes desejos.
Encontrar os teus medos é dar de cara com tudo aquilo que tu mais quer na vida.
A maioria não lida com eles. Prefere não. Fica ali com o que quase quer da vida que já tá bom demais.
E vamos combinar? É muito mais fácil.

Você pode perfeitamente evitar Saturno. Ou melhor ainda, desprezar a astrologia. Eu mesma, tou indo levar um papo com ele, me confessar, me lavar em lágrimas, me acabar.

Por quê?
Porque eu amo Saturno.

05 abril 2012

gêmeos

Para quem pensa que uma guinada de 360º deixa você exatamente onde estava não entende que depois da volta você não é mais o mesmo... Ainda que esteja no lugar de antes.

02 abril 2012

apesar de

Como alcançar essa profunda meditação do silêncio?
É um silêncio que não dorme. Inútil querer participar dele com o barulho de uma porta que se abre rangendo.

Se ao menos ventasse. Vento é ira, ira é vida.
Mas esse silêncio não deixa provas. O silêncio é a profunda noite secreta do mundo.
E, nesse momento, só um ou outro poste aceso para iluminar o silêncio das ruas.
Quantas horas perdi na escuridão achando que o silêncio me julgava.
Pássaros? Nada.
Só se sente nos ouvidos o próprio coração.

12 março 2012

Sorte?

(essa gravura é do tumblr da Mari Caldas o poeme-se - vale uma visita)

Esse post é um sopro de mini lantejoulas. Porque o anônimo, sempre ele, comentou em tom de elogio em um dos meus últimos escritos sobre a minha facilidade de me libertar.
Não se engane, essa facilidade levou anos, lágrimas, histórias - nem sempre bem contadas.
Mas eis que eu fico leve. Recebo outro texto anônimo - dessa vez por email - com pequenos elogios a essa pessoa que vos escreve. Sugiro aos amigos de verdade, vez que outra, fazerem um email desses a quem assim merecer.
E eu mereço?
Sei não. Mas eu é que não vou entrar no mérito de algo tão doce e sem aparente interesse imediato.
Um email (essa coisa tão antiga) soft. Bem escrito e do tamanho certo, como coisas softs devem ser.

Então, fiquei leve. Parei de rodopiar no mesmo lugar pelo que não precisava de mais energia.
Obviamente que não vou transcrever as palavras. Se não sou capaz de escrever as críticas que recebo, não serão os elogios os eleitos. Mais humildade (dessa que falta ao mundo), por favor!

Adoraria acreditar, no meu íntimo ao menos, que todos os contornos - físicos e psicológicos - fossem verdadeiros.

Escrevo, então, buscando a mesma delicadeza, porque tem uma hora que as brigas internas e externas acabam, e você olha em volta e é fatalmente obrigada a agradecer cada acontecimento.
Relacionamentos são assim mesmo. Ainda que se acabem, deixam filmes inteiros na memória. Talvez nada hollywoodianos. E talvez por isso tão sensacionais. E se nessa vida atraímos espelhos a todo momento, eu tenho muito a agradecer.
Sim, porque todos os amores - namorados ou namorido - que tive, são criaturas incríveis. Sorte?
(Minha mãe adora dizer que abuso da sorte nessa vida)
Sorte porra nenhuma!
Tive caras sensacionais do meu lado, que eu escolhi a dedo, porque eu sou foda pra caralho!
Os términos foram horríveis todos, sofridos, chorosos. Sim, há sangue correndo nas veias.
Mas passa. E fica a amizade, aquele resquício de intimidade (lembra que você fazia isso?) e um amor de verdade. Sim, óbvio. Você ama mesmo uma criatura quando conhece absolutamente tudo o que ela tem de bom ou ruim.
Mas acho que mais que isso, queria agradecer (chega de reclamar), já que a ideia do post é ser fofo, os espelhos que tive. Três caras admiráveis, bons pra caramba no que fazem, que me respeitaram e trataram como rainha e que me ensinaram muito e que, bem, eu também não deixei por menos. Vida é troca. E se você não teve bons espelhos duradouros, melhor olhar pra dentro.

Não fui perfeita pra eles, assim como eles não foram pra mim - continuo acreditando que nos apaixonamos pelos defeitos, e não pelas qualidades de uma pessoa - por isso duraram um bom tempo, todos. Deveria ter durado mais? Não. Duraram o tempo certo.

Tudo isso pra isso mesmo, pra soprar essas mini lantejoulas que mudam de cor conforme vão caindo.
Ou as fitinhas do senhor do bom fim com seus muitos desejos.
poeme-se
Que eu continue leve, como elas (lantejoulas e fitas), e forte.                              poeme-se

04 março 2012

eco de ventilador

Tem como arrumar a sandália sem o vestido subir?

Você dá a cara à tapa e reclama que doeu? Guênta, filha.

Mesmo quando estamos certos de que sim, é isso, esquecemos que depois de sinalizar, não precisamos justificar o retorno na estrada.
Tive tempo de vida suficiente para sacar que preciso zerar tudo, sempre. Não abro mão disso e, mesmo quando abro exceções soltas, leves, dessas que parecem "easy like a sunday morning" e que não vão fazer diferença lá na frente... eu me arrependo.

Então: inspira, expira. Silêncio.
Silêncio de verdade, desses de deixar o celular no silencioso.
Fim com término.
Com divisão de bens, não deixando nada lá atrás.
Nada?
Já tem um chip de memória suficiente que mente a falta de fotos no facebook.
Término com fim.
Com perguntas sem respostas. Com dias que chegam ao final sem confort call.
Sem amizade. Porque amizade vira sexo, mas o inverso precisa de tempo.
Sem compaixão, por favor.

Porque até quando não tem culpa, a mulher se desculpa.
"Desculpa por não ter culpa dessa vez, hein? Logo eu, né? Sempre tão culpada, sempre omitindo o incômodo, sempre entediada, sempre preferindo a solidão a qualquer grupo de pessoas"
Perdão por deixar de te amar, por não querer mais transar, por forçar um sorriso sem graça.
Me perdoe por não aceitar o tédio nas horas vagas.
Me perdoe por sempre querer mais, e diferente, e de outro ângulo, por querer gritar da janela com uma garrafa na mão mesmo quando não é sábado.
Perdão por fazer da minha vida um filme. Perdão por querer correr com lágrimas e sorrisos no rosto ao mesmo tempo.
Como diz Antônia, ter olhar estrangeiro na cidade em que se vive faz bem.

Mas, sim, omiti, menti e fantasiei mais uma vez.
Porque ninguém tem nada a ver com isso. Nenhuma verve jovem teve culpa nisso.
Eu não te amo mais (mais uma vez desculpa) vem junto de um "ninguém, nenhum amor e nenhum sexo foi a causa de tal feito".
Eu não te amo mais vem acompanhado de um "estou entediada de vez".
Sou chata?
Talvez.

Ainda me ama? A distância colore, não se engane. Sou a mesma. A mesma chata de sempre. O relacionamento com minha família se transformou em algo sensacional desde que mudei de estado. Eu também amo mais os amigos quando não os vejo com tanta frequência. Eu me acho mais bonita quando não me olho tanto no espelho.

Tudo isso para dizer, sem culpa, eu não te amo mais porque sim. Ah, como isso dói. Uma dor muda. Ninguém tem nada a ver com isso e, juro, queria muito que alguém tivesse. Sou ariana, sou fogo, vivo de grandes dramas e paixões, senão me perco.

Me perdi. E não estou disposta a abrir mão de arrumar a sandália quando esta me incomodar.

Tem como mudar a sua vida sem se expor?
Continuo achando que não.

15 fevereiro 2012

bulling

Se tem um lugar que sempre me senti mais estrangeira do que o de costume foi no colégio, assim como na faculdade. E o que mais me incomodava era a dificuldade que as pessoas tinham de aceitar as diferenças.
Não que depois de formados fiquemos melhores. Infelizmente, não.
Mas é quando estudantes, época de maior insegurança, que as injustiças vêm à tona.
Minha primeira formatura, aquela da oitava série, em que todas as meninas colocaram seu melhor vestido, eu usei bombacha. Bombacha gaúcha, sabe? E barriga de fora. Nessa época quase ninguém tem barriga mesmo. Se isso é diferente para a cidade que moro hoje (SP também é careta), imagina pra Porto Alegre nos anos 90? 
Mas me diverti com as caras de horror das mães dondocas, assim como de algumas colegas.
Nunca fui muito de me juntar a grupos, porque acredito que grupo significa muito mais exclusão do que união. 
As pessoas são tão más quando estudantes, tão estúpidas. Mas toda essa perversidade é arremessada, na verdade, porque ninguém consegue se olhar no espelho. Olhar no espelho dói mais nessa época.
Uma pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas com quase 19 mil pessoas mostrou que 99,3% dos estudantes brasileiros têm algum tipo de preconceito. (Super Interessante desse mês)
Isso me faz lembrar daquela frase do Coronel Nascimento: "Ah, você é estudante? Sabe voar, estudante?"



06 fevereiro 2012

Junto os pés encolhendo os dedos na tábua de salto. O brilho do sol seria o suficiente para me impedir de reconhecer cada rosto que me fita da arquibancada. No entanto, identifico cada um, mesmo sem olhar diretamente para ninguém. Todos os meus monstros estão presentes. Ousarei pular quando já passou o tempo de pular?

Aproximo ainda mais os pés da ponta. Nada, nem desistir a essa altura, faria eu mudar a opinião sobre mim mesma. Há dias padeço pela decisão tardia do salto. Ainda assim, abandonar o lugar apenas adiaria mais uma dor.

O silêncio encobre tudo. Ouço o barulho do meu próprio coração. Nada mais pode me salvar e, sendo assim, me sinto forte. Alguma coisa depois disso remediará meu desespero. Por um momento me sinto o mundo.

A única nuvem do céu encobre o sol. Sou tão pequena e, ao mesmo tempo, pesada demais para a situação. A água sempre esteve assim tão longe? Desisto de pensar por alguns instantes. É inutil, eu penso mesmo assim. 

Ouço o primeiro apito. No segundo devo saltar. Tudo isso pra no final morrer? Toda essa angustia para em nenhum momento se ter certeza de coisa alguma? Sinto uma gota de suor escorrer do couro cabeludo até a orelha direita. Cerro os punhos e, com força, abro novamente as mãos. Respiro fundo com dificuldade.

Eu poderia rezar, pedir, gritar e minha voz seria inaudível. O caminho é único, estreito, inseguro. Vai abrir mão dele? Pode abrir.

Onde andará minha mãe agora? Fugi dela assim como de seus conselhos a vida toda e, de repente, queria seu pessimismo crônico por perto. Talvez ela sentisse orgulho. Talvez fotografasse e depois mostrasse para uma amiga.

Ouço o segundo apito. Então, me solto de mim.

10 janeiro 2012

coisas que você não precisa saber, mas deveria



Quando você não tiver mais dúvidas, desculpa, mas você morreu.

Viver é ter dúvidas e ser atormentado por elas a cada passo do caminho.
Sim, existem milhões de mortos vivos que levam aquela vida sem pensar muito no assunto.
Pensar muito é se desesperar sempre.
Não existe pensar sem questionar, sem duvidar, sem criar.
Mas tem a parte boa. A de que pequenas cenas do cotidiano adquirem duplo sentido.
Nada é o que parece. Tudo está ali, na sua frente por alguma bendita razão de ser.
Dependendo de como são os seus dias dá até pra enlouquecer.

Ter uma vida assim subjetivada pode, então, ser fascinante e ao mesmo tempo angustiante.
E embora por vezes me encontrei invejando a vida senso comum de um servidor público, a única certeza que tenho é que prefiro sim pensar.

Viver pra pagar contas, comprar comida e viajar no fim do ano?
Ou viver para começar de novo, independente do término ou início de cada ano.
E quando você pensa, você pode se moldar o quanto for, uma hora a ficha cai. Você arruma suas coisas e vai embora.
Embora da cidade, embora de casa, embora de um modo de pensar sufocante.

Por isso as mulheres, deveras mais subjetivas que os homens, sofrem mais.
Elas não tem o botão Homer Simpson. A maioria, nem todas, claro, pensa demais.

Dito isso, Deus salve Pedro Almodóvar. O cara que veio para representar a mulher no cinema muito além da femme fatale.

Acho que a mulher é exatamente aquilo que ele passa para as suas personagens: louca, sexy, chata e inteligente demais pra não sofrer.

04 janeiro 2012

Faz de conta que ela não estava chorando por dentro. 
Mas nada se tornara dizível em palavras escritas ou faladas, era bom aquele sistema que ele inventara.


Apelara histericamente para tantos sentimentos contraditórios e violentos que o sentimento libertador terminara desprendendo-a da rede, na sua ignorância animal ela não sabia sequer como. Estava cansada do esforço de animal libertado.
Chegara o momento de decidir.


Era como ele quisesse que ela aprendesse a andar com as próprias pernas, para só então, preparada para a liberdade, ela fosse dele.


E a falta de sede? Calor com sede seria suportável. Mas ah, a falta de sede. Não havia senão faltas e ausências. E nem ao menos a vontade. Só farpas sem pontas salientes por onde serem pinçadas e extirpadas. 


A humanidade lhe era como morte eterna que, no entanto, não tivesse o alívio de enfim morrer. Nem mesmo a angústia. O peito vazio, sem contração. Não havia grito.


Enquanto isso era verão. Verão largo como o pátio vazio nas férias da escola. Dor? Nenhuma. Nenhum sinal de lágrima e nenhum suor. Sal nenhum.
Pensar no seu homem?
Não, era a farpa na parte coração dos pés.
Lamentar não ter casado e não ter filhos?
Quinze filhos dependurados, sem se balançarem à ausência de vento.


A dificuldade era uma coisa parada.
A cigarra de garganta seca não parava de rosnar.


Agora é a indiferença de um perdão. Pois não há mais julgamento.
É a ausência de juiz e condenado.


A urgência é ainda imóvel, mas já tem um tremor dentro.
Ela não percebe que o tremor é seu, como não percebera que aquilo que a queimava era seu próprio calor. Ela só percebe que agora alguma coisa vai mudar, que choverá ou cairá a noite.
Mas não suporta a espera.
Enfim o céu se abranda.

C. L.