16 outubro 2009

meia-primavera

E essa é a primavera que eu insisto em chamar de minha desde setembro.
E eu não me faço de rogada.
Saio na chuva (sem guarda-chuva), mas de bota e lenço e casaco.
Tomo sol, quando este sai e sinto ele quase dourando meu rosto.
Quase.
Um dia de pernas de fora e no outro de gorro e capuz.
"Não há saúde que agüente" me diz a senhora ao escolher pêras.
"No meu tempo havia quatro estações no ano"
Me dá vontade de dizer:
- Esse é o seu tempo, minha senhora. A senhora está viva. Esse é o seu mundo. Não há outro.
Mas não digo.
Já faz um tempo que falo pouco e observo muito.


Se eu tivesse que dizer qual foi o período mais feliz da minha vida, eu diria, sem medo de errar: os últimos doze meses.
Por quê?
Foi quando eu desisti de tentar ser feliz. Desisti de acertar.
Foi quando eu mais dei risada de mim mesma e dos outros, claro.
Estou ainda mais sádica.
Sádica e contente.
Então eu insisto em olhar pela janela e ver a primavera:
Há uma alegria sossegada no ar com metade de frio, e a vida, ao sopro leve da brisa que não há, tirita vagamente do frio que já passou, pela lembrança do frio mais que pelo frio, pela comparação com o verão próximo, mais que pelo tempo que está fazendo.

12 outubro 2009

A moda de hoje e o cinema de ontem

Eu fico pensando o que inspira a cabeça dos estilistas que fazem a moda acontecer no mundo.
Não, eu não sou uma pessoa "fashion" ou "tendência" em termos de moda.
Tenho um jeito bem particular de me vestir.
Às vezes gosto de make pesado e um look masculino, como gravata por exemplo.
Outras prefiro make leve salto fino e modelão.
Acho tudo a ver mulher usar gravata. Homem? Legal também, mas prefiro mulher.
Gosto de pegar uma ou outra coisa da moda que tem a ver comigo.
Ombreiras, por exemplo, não uso nem por uma cobertura com piscina de frente pro mar.

Como entendo muito mais de cinema que de moda e tava assistindo um filme de 74, do diretor alemão Fassbinder, percebi o quanto já tinha visto o estilo do filme em ensaios de revista e desfiles.

Martha é uma mulher alta, seca e muuuito branca.
Tanto que, quando tenta arrasar no bronze pro maridão, vira tostex pimentão. Luxo de horror.

Mas o que eu queria falar é desse estilo de make dos anos 70 que está de volta, bem presente no filme.
Pele pálida, nada de sombra ou lápis, muito curvex ou cílios postiços mesmo (tem que ficar com aquela cara da boneca Emília) e batom vermelho bombeiro.

A expressão, claro, é de inconstância e fragilidade.

Abaixo fotos do último desfile da Miu Miu em Nova York (2009) super inspirado no Fassbinder:

Aqui foto do filme "Marta"(1974)
Apesar das sombrancelhas serem finíssimas, eu não ouso arriscar que isso seja tendência.
Acho sombrancelha fina o fim da várzea.

Fora o make, todos, eu disse todos os looks do filme "Martha" são muito atuais.
Ah, o cabelo é uma coisa bem passarela, ou seja, nem em casamento o povo arrisca.
E tem mais, mulher ousada costuma ter cabelo curto, não fica horripilando no penteado.

Dá uma olhada no vestido da Martha nessa cena do filme. Super usável:


Nesse aqui pantalona no branco total com mangas bufantes e gola em laço. Super usaria. Tirando o batom, né? Tô longe de ser branca. Embora esteja faltando uns dias de praia no meu corpo. E o batom que mais gosto é esse do layout do blog mesmo.

Gosto da dançinha deles.
Filme de arrrrrrte, né amor?
Não é pra entender.

libertando a criança que ainda existe em você


Quase não dá pra ver mais?
Tá muito longe?
Ou é como no meu caso: foto da foto ao invés de scaneamento?
Te liberta dessa sina de ser perfeito, sério e adulto.
Te deixa errar.
Cair e levantar.
Brincar. E rir dessa tua cara anos 80...
beijo em todos amigos que como eu não cresceram e mesmo assim estão cheios das responsabilidades. Sem medo de não errar :b

07 outubro 2009

Para-te-quieto!

Queria dizer tanta coisa que não fui capaz de dizer nada.

A Beta me disse: "...já tá na hora dessa guria ter o que merece"

E eu não consigo fazer nada.

Fico pensando na meditação: "...e quando alguém tentar lhe magoar, ofender, ou lhe deixar tenso, irritado, imediatamente acontecerá algo dentro de você que lhe tornará flexível, tolerante, calmo, utilizando toda sabedoria e tolerância que vem do seu criador..."

OK!
OK!

estou muuito aquém dessa pessoa com traumas de infância, embora eu não incomode ninguém com os meus!

Porém, espero serenamente que ela não cruze meu caminho nos próximos seis anos. Ou eu cometerei coisas inpublicáveis.

Não a vejo por perto. E a grande sorte é dela.
Me mantenho flexível, tolerante, calma e utilizando de todo discernimento...

AMÉM.

29 setembro 2009

Ela me ajuda a arriscar

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.

Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano- já me aconteceu antes.
Pois sei que - em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -essa clareza de realidade
é um risco.
Estou arriscando.

27 setembro 2009

saudades


Tentando andar em linha reta

De todas as coisas difíceis na minha vida, a pior sempre é contar o que aconteceu para minha mãe.
Porque minha mãe é de um dramatismo de deixar o falecido diretor Ingmar Bergman no chinelo.
Mas mãe é assim, né?
Sempre quer designar a filha a não cometer todos os erros que ela própria cometeu. Sempre idealiza a vida sem arranhões, sem quedas, sem ilusões para sua herdeira.

Desculpa, mãe.
Eu não sou perfeita.
E olha que ontem sentei numa mesa de bar com amigos que se diziam a perfeição.
Sabe gente que nunca erra? Nunca trai? Nunca sente inveja ou raiva? Ódio, então...
Afe, Fernando Pessoa...
Era hora de o senhor ainda estar vivo aqui do meu lado.

Eu que já mandei email na hora errada, mensagem enganada e já beijei cara com namorada.
Eu que falo demais quando bebo e, pior!!!! Quando não bebo também.
Eu falo, faço e já fiz merda pra caralho.

Gente, que coisa mais aborrecida pessoas perfeitas.
Gente perfeita não vende.
Gente perfeita não dá ibope.
Gente perfeita é que nem gente moderna, é CHA TA.

O lance é que essas pessoas perfeitas tiveram atritos diversos (como, meu Deus?)
Atritos da internet, atritos das fofocas, atritos por causa de homem (por causa de homem????)
É.
Essa gente que se acha perfeita é admiravelmente incorreta. Ufa.
E é por isso que eu adoro cada uma delas.
Por isso que eu não dispenso a amizade de nenhuma delas.
Porque o Fernando Pessoa já morreu.
E eu não queria me sentir tão sozinha nesse mundo de gente feliz e perfeita.

Com vocês, meu maior ídolo. Ele não era moderno, não era perfeito, só era um belo observador irônico:

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Amém

24 setembro 2009

fetichismo

Só quero flores na janela e uma xícara de chá.
Quero estar na Europa e conseguir enxergar a Ásia.

Só quero isso e mais nada.

20 setembro 2009

repetindo padrões

"as mulheres são gatos", me disse um amigo num almoço inusitado no meio da semana, "nunca sabemos qual será sua próxima atitude".

"Já os homens são como cachorros, tão simples. É só chamar que eles vêm."

...ou não, né?

mas, talvez ele tenha razão.
De verdade.

19 setembro 2009

Ainda o patinho feio

Não quero que ninguém descubra que eu não tenho e nem nunca tive a fantasia da mulher-maravilha.
Não quero que ninguém descubra que eu não sou tão corajosa quanto eu gostaria, e que a maioria das atitudes covardes que tive na vida são das que mais me arrependo.
Não quero que ninguém descubra o quanto eu choro em baixo do chuveiro toda vez que não consigo ser realmente sincera por medo.
Eu continuo acreditando em milagres e duvidando do destino.
Continuo falando com estranhos e não ouvindo os amigos.
Continuo cada vez mais perto de mim e mais longe das ilusões.
As ilusões são temporárias, mas muito mais acolhedoras.
Continuo não querendo possuir coisa alguma até que ache o lugar onde eu e as coisas realmente pertençamos.
Não sei onde fica esse lugar.
Mas sei como ele é.

14 setembro 2009

E se eu me importar

É estranho ficar tanto tempo sem postar.
E mais estranho ainda quando se tem tanto pra falar como nos últimos dias.
Viajar é bom porque de certa forma organiza as idéias.
É difícil organizar dentro quando o que está fora parece o início do caos.


Fazendo terapia já a bastante tempo, tenho consciência de o quanto não me levo mais tão a sério. E muito menos os outros.
E isso só tem me ajudado.
Julgo as pessoas cada vez menos também, embora ainda julgue.
Sim. Não sou perfeita. Ainda bem. :D
As imperfeições que constroem o caráter das pessoas, que as fazem crescer.


Então, cá vivo eu com esse princípio de amadurecimento.
Amadurecimento esse que eu acreditava me deixar mais segura diante de qualquer situação.
Madura o bastante para não precisar dizer, mas apenas pensar: "I don´t care"
E sorrir por dentro. Não um sorriso malicioso ou irônico. :)
Um sorriso interno de quem está de bem consigo mesmo a ponto de não precisar se justificar.


Tive uma prova desse amadurecimento esse ano, quando recebi um monte de emails anônimos de um ex.

E quanto mais baixarias eu lia, mais aumentavam os meus risos internos do tipo: "que bom, eu cresci", "I really don´t care"


Então, passado isso, super orgulhosa, pensei que não seria qualquer ventania forte que me derrubaria.
Que venham outros furacões!
E eles vieram. Das amizades.
Agora aguênta, Juliana. :)