05 abril 2012

gêmeos

Para quem pensa que uma guinada de 360º deixa você exatamente onde estava não entende que depois da volta você não é mais o mesmo... Ainda que esteja no lugar de antes.

02 abril 2012

apesar de

Como alcançar essa profunda meditação do silêncio?
É um silêncio que não dorme. Inútil querer participar dele com o barulho de uma porta que se abre rangendo.

Se ao menos ventasse. Vento é ira, ira é vida.
Mas esse silêncio não deixa provas. O silêncio é a profunda noite secreta do mundo.
E, nesse momento, só um ou outro poste aceso para iluminar o silêncio das ruas.
Quantas horas perdi na escuridão achando que o silêncio me julgava.
Pássaros? Nada.
Só se sente nos ouvidos o próprio coração.

12 março 2012

Sorte?

(essa gravura é do tumblr da Mari Caldas o poeme-se - vale uma visita)

Esse post é um sopro de mini lantejoulas. Porque o anônimo, sempre ele, comentou em tom de elogio em um dos meus últimos escritos sobre a minha facilidade de me libertar.
Não se engane, essa facilidade levou anos, lágrimas, histórias - nem sempre bem contadas.
Mas eis que eu fico leve. Recebo outro texto anônimo - dessa vez por email - com pequenos elogios a essa pessoa que vos escreve. Sugiro aos amigos de verdade, vez que outra, fazerem um email desses a quem assim merecer.
E eu mereço?
Sei não. Mas eu é que não vou entrar no mérito de algo tão doce e sem aparente interesse imediato.
Um email (essa coisa tão antiga) soft. Bem escrito e do tamanho certo, como coisas softs devem ser.

Então, fiquei leve. Parei de rodopiar no mesmo lugar pelo que não precisava de mais energia.
Obviamente que não vou transcrever as palavras. Se não sou capaz de escrever as críticas que recebo, não serão os elogios os eleitos. Mais humildade (dessa que falta ao mundo), por favor!

Adoraria acreditar, no meu íntimo ao menos, que todos os contornos - físicos e psicológicos - fossem verdadeiros.

Escrevo, então, buscando a mesma delicadeza, porque tem uma hora que as brigas internas e externas acabam, e você olha em volta e é fatalmente obrigada a agradecer cada acontecimento.
Relacionamentos são assim mesmo. Ainda que se acabem, deixam filmes inteiros na memória. Talvez nada hollywoodianos. E talvez por isso tão sensacionais. E se nessa vida atraímos espelhos a todo momento, eu tenho muito a agradecer.
Sim, porque todos os amores - namorados ou namorido - que tive, são criaturas incríveis. Sorte?
(Minha mãe adora dizer que abuso da sorte nessa vida)
Sorte porra nenhuma!
Tive caras sensacionais do meu lado, que eu escolhi a dedo, porque eu sou foda pra caralho!
Os términos foram horríveis todos, sofridos, chorosos. Sim, há sangue correndo nas veias.
Mas passa. E fica a amizade, aquele resquício de intimidade (lembra que você fazia isso?) e um amor de verdade. Sim, óbvio. Você ama mesmo uma criatura quando conhece absolutamente tudo o que ela tem de bom ou ruim.
Mas acho que mais que isso, queria agradecer (chega de reclamar), já que a ideia do post é ser fofo, os espelhos que tive. Três caras admiráveis, bons pra caramba no que fazem, que me respeitaram e trataram como rainha e que me ensinaram muito e que, bem, eu também não deixei por menos. Vida é troca. E se você não teve bons espelhos duradouros, melhor olhar pra dentro.

Não fui perfeita pra eles, assim como eles não foram pra mim - continuo acreditando que nos apaixonamos pelos defeitos, e não pelas qualidades de uma pessoa - por isso duraram um bom tempo, todos. Deveria ter durado mais? Não. Duraram o tempo certo.

Tudo isso pra isso mesmo, pra soprar essas mini lantejoulas que mudam de cor conforme vão caindo.
Ou as fitinhas do senhor do bom fim com seus muitos desejos.
poeme-se
Que eu continue leve, como elas (lantejoulas e fitas), e forte.                              poeme-se

04 março 2012

eco de ventilador

Tem como arrumar a sandália sem o vestido subir?

Você dá a cara à tapa e reclama que doeu? Guênta, filha.

Mesmo quando estamos certos de que sim, é isso, esquecemos que depois de sinalizar, não precisamos justificar o retorno na estrada.
Tive tempo de vida suficiente para sacar que preciso zerar tudo, sempre. Não abro mão disso e, mesmo quando abro exceções soltas, leves, dessas que parecem "easy like a sunday morning" e que não vão fazer diferença lá na frente... eu me arrependo.

Então: inspira, expira. Silêncio.
Silêncio de verdade, desses de deixar o celular no silencioso.
Fim com término.
Com divisão de bens, não deixando nada lá atrás.
Nada?
Já tem um chip de memória suficiente que mente a falta de fotos no facebook.
Término com fim.
Com perguntas sem respostas. Com dias que chegam ao final sem confort call.
Sem amizade. Porque amizade vira sexo, mas o inverso precisa de tempo.
Sem compaixão, por favor.

Porque até quando não tem culpa, a mulher se desculpa.
"Desculpa por não ter culpa dessa vez, hein? Logo eu, né? Sempre tão culpada, sempre omitindo o incômodo, sempre entediada, sempre preferindo a solidão a qualquer grupo de pessoas"
Perdão por deixar de te amar, por não querer mais transar, por forçar um sorriso sem graça.
Me perdoe por não aceitar o tédio nas horas vagas.
Me perdoe por sempre querer mais, e diferente, e de outro ângulo, por querer gritar da janela com uma garrafa na mão mesmo quando não é sábado.
Perdão por fazer da minha vida um filme. Perdão por querer correr com lágrimas e sorrisos no rosto ao mesmo tempo.
Como diz Antônia, ter olhar estrangeiro na cidade em que se vive faz bem.

Mas, sim, omiti, menti e fantasiei mais uma vez.
Porque ninguém tem nada a ver com isso. Nenhuma verve jovem teve culpa nisso.
Eu não te amo mais (mais uma vez desculpa) vem junto de um "ninguém, nenhum amor e nenhum sexo foi a causa de tal feito".
Eu não te amo mais vem acompanhado de um "estou entediada de vez".
Sou chata?
Talvez.

Ainda me ama? A distância colore, não se engane. Sou a mesma. A mesma chata de sempre. O relacionamento com minha família se transformou em algo sensacional desde que mudei de estado. Eu também amo mais os amigos quando não os vejo com tanta frequência. Eu me acho mais bonita quando não me olho tanto no espelho.

Tudo isso para dizer, sem culpa, eu não te amo mais porque sim. Ah, como isso dói. Uma dor muda. Ninguém tem nada a ver com isso e, juro, queria muito que alguém tivesse. Sou ariana, sou fogo, vivo de grandes dramas e paixões, senão me perco.

Me perdi. E não estou disposta a abrir mão de arrumar a sandália quando esta me incomodar.

Tem como mudar a sua vida sem se expor?
Continuo achando que não.

15 fevereiro 2012

bulling

Se tem um lugar que sempre me senti mais estrangeira do que o de costume foi no colégio, assim como na faculdade. E o que mais me incomodava era a dificuldade que as pessoas tinham de aceitar as diferenças.
Não que depois de formados fiquemos melhores. Infelizmente, não.
Mas é quando estudantes, época de maior insegurança, que as injustiças vêm à tona.
Minha primeira formatura, aquela da oitava série, em que todas as meninas colocaram seu melhor vestido, eu usei bombacha. Bombacha gaúcha, sabe? E barriga de fora. Nessa época quase ninguém tem barriga mesmo. Se isso é diferente para a cidade que moro hoje (SP também é careta), imagina pra Porto Alegre nos anos 90? 
Mas me diverti com as caras de horror das mães dondocas, assim como de algumas colegas.
Nunca fui muito de me juntar a grupos, porque acredito que grupo significa muito mais exclusão do que união. 
As pessoas são tão más quando estudantes, tão estúpidas. Mas toda essa perversidade é arremessada, na verdade, porque ninguém consegue se olhar no espelho. Olhar no espelho dói mais nessa época.
Uma pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas com quase 19 mil pessoas mostrou que 99,3% dos estudantes brasileiros têm algum tipo de preconceito. (Super Interessante desse mês)
Isso me faz lembrar daquela frase do Coronel Nascimento: "Ah, você é estudante? Sabe voar, estudante?"



06 fevereiro 2012

Junto os pés encolhendo os dedos na tábua de salto. O brilho do sol seria o suficiente para me impedir de reconhecer cada rosto que me fita da arquibancada. No entanto, identifico cada um, mesmo sem olhar diretamente para ninguém. Todos os meus monstros estão presentes. Ousarei pular quando já passou o tempo de pular?

Aproximo ainda mais os pés da ponta. Nada, nem desistir a essa altura, faria eu mudar a opinião sobre mim mesma. Há dias padeço pela decisão tardia do salto. Ainda assim, abandonar o lugar apenas adiaria mais uma dor.

O silêncio encobre tudo. Ouço o barulho do meu próprio coração. Nada mais pode me salvar e, sendo assim, me sinto forte. Alguma coisa depois disso remediará meu desespero. Por um momento me sinto o mundo.

A única nuvem do céu encobre o sol. Sou tão pequena e, ao mesmo tempo, pesada demais para a situação. A água sempre esteve assim tão longe? Desisto de pensar por alguns instantes. É inutil, eu penso mesmo assim. 

Ouço o primeiro apito. No segundo devo saltar. Tudo isso pra no final morrer? Toda essa angustia para em nenhum momento se ter certeza de coisa alguma? Sinto uma gota de suor escorrer do couro cabeludo até a orelha direita. Cerro os punhos e, com força, abro novamente as mãos. Respiro fundo com dificuldade.

Eu poderia rezar, pedir, gritar e minha voz seria inaudível. O caminho é único, estreito, inseguro. Vai abrir mão dele? Pode abrir.

Onde andará minha mãe agora? Fugi dela assim como de seus conselhos a vida toda e, de repente, queria seu pessimismo crônico por perto. Talvez ela sentisse orgulho. Talvez fotografasse e depois mostrasse para uma amiga.

Ouço o segundo apito. Então, me solto de mim.

10 janeiro 2012

coisas que você não precisa saber, mas deveria



Quando você não tiver mais dúvidas, desculpa, mas você morreu.

Viver é ter dúvidas e ser atormentado por elas a cada passo do caminho.
Sim, existem milhões de mortos vivos que levam aquela vida sem pensar muito no assunto.
Pensar muito é se desesperar sempre.
Não existe pensar sem questionar, sem duvidar, sem criar.
Mas tem a parte boa. A de que pequenas cenas do cotidiano adquirem duplo sentido.
Nada é o que parece. Tudo está ali, na sua frente por alguma bendita razão de ser.
Dependendo de como são os seus dias dá até pra enlouquecer.

Ter uma vida assim subjetivada pode, então, ser fascinante e ao mesmo tempo angustiante.
E embora por vezes me encontrei invejando a vida senso comum de um servidor público, a única certeza que tenho é que prefiro sim pensar.

Viver pra pagar contas, comprar comida e viajar no fim do ano?
Ou viver para começar de novo, independente do término ou início de cada ano.
E quando você pensa, você pode se moldar o quanto for, uma hora a ficha cai. Você arruma suas coisas e vai embora.
Embora da cidade, embora de casa, embora de um modo de pensar sufocante.

Por isso as mulheres, deveras mais subjetivas que os homens, sofrem mais.
Elas não tem o botão Homer Simpson. A maioria, nem todas, claro, pensa demais.

Dito isso, Deus salve Pedro Almodóvar. O cara que veio para representar a mulher no cinema muito além da femme fatale.

Acho que a mulher é exatamente aquilo que ele passa para as suas personagens: louca, sexy, chata e inteligente demais pra não sofrer.

04 janeiro 2012

Faz de conta que ela não estava chorando por dentro. 
Mas nada se tornara dizível em palavras escritas ou faladas, era bom aquele sistema que ele inventara.


Apelara histericamente para tantos sentimentos contraditórios e violentos que o sentimento libertador terminara desprendendo-a da rede, na sua ignorância animal ela não sabia sequer como. Estava cansada do esforço de animal libertado.
Chegara o momento de decidir.


Era como ele quisesse que ela aprendesse a andar com as próprias pernas, para só então, preparada para a liberdade, ela fosse dele.


E a falta de sede? Calor com sede seria suportável. Mas ah, a falta de sede. Não havia senão faltas e ausências. E nem ao menos a vontade. Só farpas sem pontas salientes por onde serem pinçadas e extirpadas. 


A humanidade lhe era como morte eterna que, no entanto, não tivesse o alívio de enfim morrer. Nem mesmo a angústia. O peito vazio, sem contração. Não havia grito.


Enquanto isso era verão. Verão largo como o pátio vazio nas férias da escola. Dor? Nenhuma. Nenhum sinal de lágrima e nenhum suor. Sal nenhum.
Pensar no seu homem?
Não, era a farpa na parte coração dos pés.
Lamentar não ter casado e não ter filhos?
Quinze filhos dependurados, sem se balançarem à ausência de vento.


A dificuldade era uma coisa parada.
A cigarra de garganta seca não parava de rosnar.


Agora é a indiferença de um perdão. Pois não há mais julgamento.
É a ausência de juiz e condenado.


A urgência é ainda imóvel, mas já tem um tremor dentro.
Ela não percebe que o tremor é seu, como não percebera que aquilo que a queimava era seu próprio calor. Ela só percebe que agora alguma coisa vai mudar, que choverá ou cairá a noite.
Mas não suporta a espera.
Enfim o céu se abranda.

C. L.

09 dezembro 2011

Listras de verão parte II


"Desperta-me, Senhor! Sopra-me palavras inéditas, inspira-me com lampejos e intuições. Tira-me do sério, dos trilhos, da forma. Dá-me sobressaltos e suspiros, desvarios e fome. Dá-me plena posse de mim mesma, para o bem e para o mal."

Amém.

(via Hilda Lucas)